Mineração
Lynas compra projeto de terras raras em Minas Gerais por R$ 3,5 bilhões
Maior produtora de terras raras fora da China adquire Meteoric Resources, dona do Projeto Caldeira, em Caldas; operação será paga integralmente com ações
A mineradora australiana Lynas Rare Earths anunciou nesta quarta-feira (30) um acordo para adquirir 100% da Meteoric Resources, empresa responsável pelo desenvolvimento do Projeto Caldeira, em Caldas, no Sul de Minas Gerais. A operação, avaliada em A$ 968 milhões, será realizada integralmente por meio de troca de ações. O valor equivale a cerca de US$ 672 milhões.
A aquisição amplia a presença da Lynas no mercado global de terras raras e dá à empresa acesso a um depósito brasileiro com grande concentração desses minerais. A companhia australiana é uma das principais produtoras de terras raras fora da China e busca ampliar sua participação em uma cadeia considerada estratégica para setores como veículos elétricos, eletrônicos, energia e defesa.
O Projeto Caldeira está localizado em Minas Gerais e possui recursos de terras raras em argilas iônicas, um tipo de depósito que apresenta características diferentes das jazidas de rocha dura exploradas atualmente pela Lynas na Austrália.
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Operação será feita com troca de ações
Pelos termos do acordo, os acionistas da Meteoric receberão 0,0207 ação nova da Lynas para cada ação da empresa que possuem.
Após a conclusão da operação, os atuais acionistas da Lynas deverão deter aproximadamente 94,1% da companhia combinada, enquanto os acionistas da Meteoric ficarão com cerca de 5,9%.
O valor de A$ 968 milhões considera o preço médio ponderado pelo volume das ações da Lynas nos 60 pregões anteriores ao anúncio. Em relação ao fechamento das ações da Lynas em 30 de setembro, a oferta representa um prêmio de aproximadamente 68% sobre o preço da Meteoric.
A transação seguirá o mecanismo australiano conhecido como scheme of arrangement, utilizado em operações de aquisição. O acordo ainda depende das aprovações previstas no processo e de outras condições estabelecidas pelas empresas.
O conselho da Meteoric recomendou a operação por unanimidade, condicionada à inexistência de uma proposta superior e à conclusão de uma avaliação independente favorável aos acionistas.
Até a conclusão do negócio, a Lynas também disponibilizará até A$ 110 milhões em financiamento para a Meteoric continuar avançando no desenvolvimento do Projeto Caldeira.
Por que o Projeto Caldeira é estratégico
O diferencial do empreendimento está justamente no tipo de depósito mineral.
Nas chamadas argilas iônicas, os elementos de terras raras ficam aderidos à superfície das partículas de argila, em vez de estarem incorporados à estrutura de rochas duras. Essa característica pode permitir métodos de extração diferentes daqueles utilizados em minas convencionais.
A Meteoric considera que o projeto tem potencial para produzir uma quantidade relevante de neodímio e praseodímio (NdPr), utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Outros elementos, como disprósio e térbio, também são importantes para aplicações que exigem resistência dos ímãs a temperaturas elevadas.
As terras raras são utilizadas em uma série de produtos e tecnologias, incluindo motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e aplicações relacionadas à defesa.
Projeto ainda está em desenvolvimento
A aquisição não significa que a mina brasileira já esteja em operação. O Projeto Caldeira ainda depende do avanço das etapas de licenciamento, engenharia e implantação necessárias para chegar à produção comercial.
O estudo de viabilidade divulgado pela Meteoric prevê investimentos para implantação do empreendimento e uma operação de longo prazo. A empresa também pretende avançar no processo de licenciamento ambiental em Minas Gerais.
A Lynas informou que pretende avaliar a possibilidade de desenvolver etapas adicionais de processamento no Brasil, embora não tenha assumido, neste momento, um compromisso definitivo de investimento para essa estrutura.
A possibilidade é relevante porque a etapa de separação dos diferentes elementos de terras raras é uma das partes mais complexas da cadeia produtiva. A China possui forte participação justamente nessa fase industrial.
Nova legislação brasileira entra no processo
A aquisição ocorre poucas semanas depois da entrada em vigor da Lei nº 15.506/2026, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.
A legislação estabelece mecanismos de análise para mudanças de controle societário, diretas ou indiretas, de empresas que detenham direitos minerários relacionados a minerais classificados como críticos ou estratégicos. A lei também prevê mecanismos de estímulo ao beneficiamento e à transformação desses minerais no território nacional.
A regulamentação da política foi publicada no mesmo dia, por meio do Decreto nº 13.118/2026, que criou a estrutura do conselho responsável pela coordenação da política nacional para o setor.
Por isso, a mudança de controle da Meteoric deverá passar pelas exigências regulatórias brasileiras aplicáveis ao negócio.
Brasil ganha espaço na disputa por terras raras
A operação coloca o projeto de Caldas no centro da estratégia da Lynas para ampliar suas fontes de matérias-primas fora da China.
A empresa australiana já possui operações de mineração e processamento na Austrália e na Malásia. Com a aquisição da Meteoric, passa a incorporar ao seu portfólio um projeto brasileiro em uma região com grandes recursos de terras raras.
O negócio também ocorre em um momento de maior atenção internacional à segurança das cadeias de fornecimento desses minerais, utilizados em tecnologias consideradas estratégicas.
A conclusão da aquisição ainda depende do cumprimento das condições estabelecidas no acordo e das aprovações necessárias. Até lá, a Meteoric continuará responsável pelo desenvolvimento do Projeto Caldeira.
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