Mudanças Climáticas
Perda de gelo na Antártica é inevitável neste século, aponta estudo com inteligência artificial
Pesquisa publicada na Nature Geoscience simulou centenas de milhares de cenários futuros e concluiu que derretimento vai superar o acúmulo de neve, mesmo com aquecimento limitado a 1,5°C
A Antártica deve continuar perdendo massa de gelo até o fim deste século, mesmo em cenários de redução expressiva das emissões de gases de efeito estufa. A conclusão é de um estudo publicado em 30 de setembro na revista científica Nature Geoscience, que combinou inteligência artificial, modelos climáticos e observações por satélite para avaliar diferentes possibilidades para o futuro do continente.
Coordenada por Yucheng Lin, pesquisador da Universidade da Cidade de Hong Kong, a pesquisa estima em pelo menos 92% a probabilidade de a camada de gelo antártica perder massa até 2100 mesmo em um cenário de redução ambiciosa das emissões. Os resultados também indicam que quanto maiores forem as emissões, maior tende a ser a contribuição da Antártica para a elevação do nível do mar.
O estudo não afirma que as medidas contra o aquecimento global sejam inúteis. Pelo contrário: os autores destacam que a redução das emissões pode limitar a perda de gelo e diminuir os riscos para as populações costeiras.
Continua depois da publicidade
Mais neve não deve compensar o derretimento
O aquecimento da atmosfera pode aumentar a quantidade de umidade disponível e favorecer a precipitação de neve sobre a Antártica. Esse acúmulo representa uma forma de ganho de massa para o continente.
Entretanto, o oceano mais quente intensifica o derretimento da parte inferior das plataformas de gelo que avançam sobre o mar. Essas estruturas funcionam como uma barreira que ajuda a conter o deslocamento das geleiras em direção ao oceano.
Quando as plataformas afinam ou perdem estabilidade, o gelo que está sobre o continente pode escoar mais rapidamente para o mar. De acordo com o estudo, o ganho de massa provocado pelo aumento da neve dificilmente compensará as perdas impulsionadas pelo aquecimento dos oceanos nos cenários analisados.
Como a inteligência artificial foi utilizada
Para realizar as projeções, os pesquisadores desenvolveram um sistema de aprendizado de máquina capaz de reproduzir os resultados de modelos físicos utilizados para estudar o comportamento das camadas de gelo. A ferramenta foi treinada com dados do Projeto de Intercomparação de Modelos de Camadas de Gelo, conhecido pela sigla ISMIP6.
O método permite avaliar rapidamente diferentes combinações de hipóteses sobre o clima, a dinâmica do gelo e o derretimento das plataformas. Em seguida, os pesquisadores utilizaram observações por satélite para calibrar as projeções e reduzir possíveis desvios dos modelos.
A comparação com as medições reais foi importante porque diferentes escolhas de modelagem podem produzir estimativas distintas para a perda de gelo. O objetivo foi identificar projeções mais compatíveis com o comportamento observado da Antártica, sem eliminar as incertezas que ainda existem sobre sua evolução.
Elevação do nível do mar preocupa regiões costeiras
A perda de gelo continental contribui diretamente para a elevação do nível médio dos oceanos. Esse processo ocorre junto a outros fatores, como o derretimento de geleiras de montanha e da camada de gelo da Groenlândia, além da expansão da água do mar à medida que ela se aquece.
No cenário de emissões muito altas analisado pelos pesquisadores, a contribuição da Antártica pode alcançar 25,4 centímetros até 2100 no percentil 95 das projeções. A mediana calculada nesse cenário é de 15,7 centímetros. Esses números representam a contribuição estimada do continente antártico, e não a elevação total do nível do mar causada por todos os fatores.
A elevação dos oceanos aumenta o risco de inundações, erosão costeira e danos à infraestrutura, especialmente em áreas baixas e densamente povoadas. Os impactos variam conforme a localização, as características do litoral e a capacidade de adaptação de cada região.
Reduzir emissões ainda pode limitar os impactos
Embora o estudo indique que a perda de massa de gelo deve continuar neste século, os resultados mostram diferenças entre os cenários climáticos. As emissões mais elevadas estão associadas a uma contribuição maior da Antártica para a elevação do nível do mar.
Os pesquisadores ressaltam que decisões tomadas no presente influenciam a intensidade dos riscos nas próximas décadas e nos séculos seguintes. A redução das emissões, combinada ao aprimoramento das observações e dos modelos climáticos, é considerada fundamental para melhorar as projeções e orientar o planejamento de áreas costeiras.
A pesquisa também destaca que ainda existem incertezas importantes sobre os processos que controlam o movimento das geleiras e o derretimento das plataformas de gelo. Melhorar a representação desses mecanismos nos modelos será essencial para estimar com mais precisão a evolução futura do continente.
- Juliano Floss ameaça processar usuários por deepfake pornográfico com ex-BBB
- Google lança Gemini 4 Argon com foco em programação e segurança cibernética
- Profissionais usam IA para triplicar produtividade e assumir novas tarefas
- Justiça japonesa reconhece proteção legal para voz humana em caso de clonagem por IA
Participe da conversa
Acesse sua conta Mancheck para comentar.
Entrar