Eleições 2026
Debate cancelado: eleitor vai às urnas sem último confronto na TV
Liminares do TSE e do STF saíram horas antes da transmissão, e a Globo cancelou o confronto entre presidenciáveis. O episódio repercutiu na imprensa internacional e deixa os eleitores sem o último encontro ao vivo antes do 1º turno, no domingo (4).
Às 22h de quinta-feira (1º), milhões de brasileiros que esperavam ver os candidatos à Presidência frente a frente encontraram na tela um capítulo da novela Quem Ama Cuida. Ao mesmo tempo, o presidente Lula (PT) falava ao vivo no podcast Flow, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) fazia uma transmissão no Instagram. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) já estavam nos estúdios da emissora e não tiveram onde falar.
O último debate presidencial antes do primeiro turno foi cancelado poucas horas antes de ir ao ar. Segundo a Globo, o motivo foram decisões judiciais que mudaram as regras acertadas com os partidos.
Uma semana de decisões em sequência
A crise foi se formando ao longo da semana. Na terça-feira (29), o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, mudou a forma de contar os parlamentares de cada partido e garantiu a Romeu Zema uma vaga no debate. Pela lei, a emissora só é obrigada a convidar candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso. Por esse critério, a Globo tinha chamado Cury, Flávio, Caiado e Lula.
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Na quinta, vieram mais duas decisões. Por volta das 18h30, a ministra Estela Aranha, do TSE, atendeu a um pedido da coligação de Lula. Ela proibiu a emissora de manter no cenário o púlpito vazio com o nome do presidente e de permitir que os outros candidatos fizessem perguntas a ele. Essa regra estava prevista na ata assinada por todos os partidos, inclusive o PT. Para a ministra, a regra poderia criar “desequilíbrio” entre os participantes. “A consequência jurídica da ausência é simplesmente que ele perde a oportunidade de participar daquela rodada”, escreveu.
Quase ao mesmo tempo, o ministro Gilmar Mendes, do STF, atendeu a um pedido do Solidariedade. Ele derrubou uma decisão de Nunes Marques e mandou incluir Renan Santos (Missão) no debate. Na decisão, Gilmar também mandou um recado: segundo ele, não cabe só ao TSE decidir sobre todos os aspectos da eleição.
A desistência de Flávio e a reação da Globo
Lula já tinha avisado dias antes que não iria ao debate. Com as novas regras, Flávio também desistiu. “Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE”, publicou. Renan Santos deu outra explicação: “O medo que Flávio Bolsonaro tem de mim o levou a cancelar a participação no debate apenas três minutos depois que minha presença foi confirmada”.
Pouco depois, a Globo anunciou o cancelamento. Em nota, a emissora disse que as “sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais”.
STF e TSE em atrito
O episódio expôs um conflito que já vinha crescendo entre os dois tribunais. No domingo anterior (27), o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu uma liminar do vice-presidente do TSE, André Mendonça, e liberou uma publicação do humorista Antonio Tabet envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Nunes Marques reagiu e falou em “risco de captura institucional” da Justiça Eleitoral. Depois, o ministro Luiz Fux, também do STF, anulou a decisão de Dino. O debate da Globo acabou sendo mais um capítulo dessa disputa.
Cada candidato no seu canal
Sem o debate na TV, os dois líderes das pesquisas falaram em ambientes próprios. No Flow, Lula defendeu os programas do governo e se disse confiante: “Tô achando que vou ser eleito domingo”. Na live, Flávio chamou o adversário de “covarde” e disse que Lula recorreu a “amigos no Judiciário”.
Os outros candidatos protestaram. “Quem perde é a democracia”, disse Zema, que também criticou o Judiciário. Caiado e Cury também lamentaram o cancelamento.
Repercussão no exterior
O caso foi noticiado fora do país. A Reuters foi uma das primeiras a publicar. A Al Jazeera destacou a ausência dos dois principais candidatos, e a AFP falou em uma campanha “polarizada”. O espanhol El Mundo descreveu o momento como “caos” no Brasil. EFE, CNN en Español, El Tiempo (Colômbia), El Comercio (Peru), Swissinfo e o dinamarquês Berlingske também publicaram reportagens.
O que fica para domingo
O primeiro turno é no domingo, 4 de outubro, e os eleitores vão às urnas sem o último confronto direto entre os candidatos. Os debates na TV costumam ser a última chance de comparar propostas lado a lado. Desta vez, cada candidato falou só para o próprio público, e as propostas ficaram em segundo plano numa campanha marcada por ataques e disputas na Justiça.
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