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19 de setembro de 2026

Crise Climática

Clima perdido não será recuperado em futuro previsível, alerta cientista

Climatologista afirma que composição atmosférica alterada há décadas impedirá retorno às condições climáticas do século 20 por pelo menos cem anos

Por Ana Beatriz Ramos
Clima perdido não será recuperado em futuro previsível, alerta cientista

A atmosfera em que as gerações atuais nasceram não existe mais e não será recuperada em nenhum futuro previsível, segundo avaliação do climatologista equatoriano Raúl Cordero, professor da Universidade de Groningen, na Holanda. O especialista, que realiza pesquisas na Antártida, alerta que a humanidade ainda pode agravar a situação caso não interrompa as emissões de gases de efeito estufa.

A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera cresceu 50% em relação aos níveis registrados há pouco mais de um século. Essa alteração radical na composição atmosférica do planeta já modificou o clima de forma irreversível no curto prazo.

O período entre 2015 e 2025 registrou os 11 anos mais quentes já documentados, de acordo com relatório da Organização Meteorológica Mundial divulgado em março. O serviço meteorológico britânico declarou que “o clima do século 20 já não existe”, afirmação com a qual Cordero concorda integralmente.

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Por que a recuperação levará tanto tempo

O CO2 tem vida média de pelo menos um século na atmosfera. Isso significa que o gás que altera o clima hoje não é apenas o emitido atualmente, mas também aquele liberado por gerações passadas. O problema assume caráter intergeracional: as emissões atuais continuarão modificando o clima por cem anos, muito depois da morte de quem as produziu.

Reduzir a concentração de gases de efeito estufa demandará pelo menos cem anos, tornando improvável que a humanidade recupere a atmosfera anterior dentro dos horizontes de vida das gerações vivas. Contudo, o climatologista ressalta que a situação pode piorar caso as emissões não sejam interrompidas.

Epidemia de eventos extremos

As mudanças climáticas provocam aumento na frequência e intensidade de eventos extremos ao redor do mundo. Megaincêndios têm se tornado cada vez mais comuns e devastadores em diferentes continentes.

Os incêndios recentes na Europa seguem padrão similar ao observado na Califórnia em janeiro de 2025, quando subúrbios de Los Angeles foram destruídos por chamas que duraram quase duas semanas, apesar dos recursos materiais disponíveis no estado mais rico do país mais desenvolvido do planeta.

Eventos semelhantes ocorreram na Austrália em 2020 e no Chile em 2017 e 2023. Em 2024, mais de cem pessoas morreram quando incêndio avançou sobre Viña del Mar, no Chile, com tamanha rapidez que impossibilitou a fuga de muitos moradores.

Na França, somente em julho, mais de 200 mil pessoas precisaram ser evacuadas devido aos incêndios. Na Espanha, moradores de Navas del Rey, a 55 quilômetros de Madri, perderam suas casas.

Gestão florestal não é o principal fator

Embora questões de gestão florestal possam desempenhar algum papel, o cientista enfatiza que não representam o principal problema por trás dos megaincêndios. Diferentes modelos de gestão do fogo foram testados na Califórnia, Austrália, Chile e sul da Europa, mas nenhum conseguiu deter os aumentos recentes de área queimada.

Os incêndios catastróficos atuais têm intensidade jamais vista e não podem ser contidos, independentemente dos recursos materiais disponíveis ou do heroísmo dos bombeiros. A única forma de impedir o agravamento da situação é interromper as emissões de gases de efeito estufa.

Ondas de calor letais

As ondas de calor representam a manifestação mais letal do aquecimento global. A onda de calor de junho de 2026 provocou mortes em excesso de mais de 10 mil pessoas na Europa, sendo 5,7 mil somente na França, segundo dados do European Mortality Monitor, organismo que monitora a mortalidade no continente.

O climatologista destaca que aumentos de um ou dois graus na temperatura global podem parecer pequenos, mas têm consequências dramáticas na frequência e intensidade de eventos extremos que afetam diretamente a população.

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