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19 de setembro de 2026

Educação

Escolas brasileiras enfrentam desafios com uso da inteligência artificial em sala de aula

Sete em cada dez alunos do ensino médio usam IA para pesquisas escolares, mas apenas 32% receberam orientação sobre o uso adequado dessas ferramentas

Por Ana Beatriz Ramos
Escolas brasileiras enfrentam desafios com uso da inteligência artificial em sala de aula

A chegada da inteligência artificial nas escolas brasileiras tem gerado desafios pedagógicos inéditos. Dados da pesquisa TIC Educação 2024, divulgada pelo Cetic.br, revelam que 70% dos estudantes do ensino médio que acessam a internet utilizam ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, Gemini e Copilot, para realizar pesquisas escolares. O problema é que apenas um terço desses alunos recebeu orientações das instituições sobre como usar essas tecnologias de forma adequada.

A transformação digital nas escolas ganhou força durante a pandemia de Covid-19, quando a suspensão das aulas presenciais obrigou as instituições a adotarem o ensino remoto. O processo acelerou mudanças que já vinham ocorrendo na rede privada, onde recursos digitais faziam parte da rotina antes da crise sanitária. Na rede pública, a adoção foi mais irregular, dependendo da infraestrutura disponível em cada unidade.

Professora de matemática na rede municipal de São Paulo desde 2018, Silvana Michelen relata benefícios concretos no dia a dia. Com a implantação de salas digitais pela Prefeitura após a pandemia, ela passou a preparar aulas em slides e ganhou tempo que antes dedicava a escrever e apagar a lousa entre uma turma e outra. A mudança também permitiu dar mais atenção individual aos estudantes enquanto copiam exercícios.

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Desigualdade na infraestrutura

A disparidade entre instituições permanece evidente. Renata Soares, professora formada em Letras há 20 anos e especialista em neuropsicologia, atuou tanto no ensino público quanto privado. Ela observa que algumas escolas públicas em cidades como Arujá, em São Paulo, contam com laboratórios de informática e tablets para os alunos, mas essa não é a realidade da maioria. A estrutura varia conforme o município e os recursos disponíveis.

O risco do “emburrecimento contínuo”

O uso indiscriminado da inteligência artificial preocupa educadores. Soares defende que a tecnologia seja aliada do ensino, mas com limites claros. Segundo ela, parte dos estudantes utiliza a IA apenas para reproduzir respostas prontas, sem desenvolver pensamento crítico ou organização das próprias ideias — um processo que ela define como “emburrecimento contínuo”.

A professora relata uma diferença marcante entre as atividades feitas em casa e em sala de aula. Trabalhos domiciliares retornam “lindos e maravilhosos”, mas as mesmas tarefas realizadas em classe, sem acesso às ferramentas digitais, resultam em “caos”. Nas avaliações, a queda no desempenho se torna ainda mais evidente. Alunos que aparentam produzir reflexões excelentes em casa não conseguem demonstrar o mesmo raciocínio nas provas.

Para Soares, o desafio atual não está em proibir ou liberar a tecnologia, mas em ensinar os estudantes a utilizá-la com senso crítico, autonomia e finalidade pedagógica, sem abandonar as bases fundamentais do ensino.

Experiências internacionais

Outros países lidam com a questão de formas distintas. A Coreia do Sul, que iniciou políticas de modernização educacional na década de 1990, utiliza a tecnologia de forma central no processo de ensino. O governo ampliou recentemente o uso de plataformas educacionais inteligentes capazes de acompanhar o progresso individual dos estudantes, identificar dificuldades e oferecer conteúdos personalizados. Essas ferramentas também fornecem dados que auxiliam professores no planejamento das aulas.

Já a Finlândia, reconhecida pela qualidade de seu sistema educacional, adotou uma abordagem mais criteriosa. O país investe em ferramentas digitais e inteligência artificial, mas defende que esses recursos devem complementar, e não substituir, a atuação do professor.

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