Educação
Escolas brasileiras enfrentam desafios com uso da inteligência artificial em sala de aula
Sete em cada dez alunos do ensino médio usam IA para pesquisas escolares, mas apenas 32% receberam orientação sobre o uso adequado dessas ferramentas
A chegada da inteligência artificial nas escolas brasileiras tem gerado desafios pedagógicos inéditos. Dados da pesquisa TIC Educação 2024, divulgada pelo Cetic.br, revelam que 70% dos estudantes do ensino médio que acessam a internet utilizam ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, Gemini e Copilot, para realizar pesquisas escolares. O problema é que apenas um terço desses alunos recebeu orientações das instituições sobre como usar essas tecnologias de forma adequada.
A transformação digital nas escolas ganhou força durante a pandemia de Covid-19, quando a suspensão das aulas presenciais obrigou as instituições a adotarem o ensino remoto. O processo acelerou mudanças que já vinham ocorrendo na rede privada, onde recursos digitais faziam parte da rotina antes da crise sanitária. Na rede pública, a adoção foi mais irregular, dependendo da infraestrutura disponível em cada unidade.
Professora de matemática na rede municipal de São Paulo desde 2018, Silvana Michelen relata benefícios concretos no dia a dia. Com a implantação de salas digitais pela Prefeitura após a pandemia, ela passou a preparar aulas em slides e ganhou tempo que antes dedicava a escrever e apagar a lousa entre uma turma e outra. A mudança também permitiu dar mais atenção individual aos estudantes enquanto copiam exercícios.
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Desigualdade na infraestrutura
A disparidade entre instituições permanece evidente. Renata Soares, professora formada em Letras há 20 anos e especialista em neuropsicologia, atuou tanto no ensino público quanto privado. Ela observa que algumas escolas públicas em cidades como Arujá, em São Paulo, contam com laboratórios de informática e tablets para os alunos, mas essa não é a realidade da maioria. A estrutura varia conforme o município e os recursos disponíveis.
O risco do “emburrecimento contínuo”
O uso indiscriminado da inteligência artificial preocupa educadores. Soares defende que a tecnologia seja aliada do ensino, mas com limites claros. Segundo ela, parte dos estudantes utiliza a IA apenas para reproduzir respostas prontas, sem desenvolver pensamento crítico ou organização das próprias ideias — um processo que ela define como “emburrecimento contínuo”.
A professora relata uma diferença marcante entre as atividades feitas em casa e em sala de aula. Trabalhos domiciliares retornam “lindos e maravilhosos”, mas as mesmas tarefas realizadas em classe, sem acesso às ferramentas digitais, resultam em “caos”. Nas avaliações, a queda no desempenho se torna ainda mais evidente. Alunos que aparentam produzir reflexões excelentes em casa não conseguem demonstrar o mesmo raciocínio nas provas.
Para Soares, o desafio atual não está em proibir ou liberar a tecnologia, mas em ensinar os estudantes a utilizá-la com senso crítico, autonomia e finalidade pedagógica, sem abandonar as bases fundamentais do ensino.
Experiências internacionais
Outros países lidam com a questão de formas distintas. A Coreia do Sul, que iniciou políticas de modernização educacional na década de 1990, utiliza a tecnologia de forma central no processo de ensino. O governo ampliou recentemente o uso de plataformas educacionais inteligentes capazes de acompanhar o progresso individual dos estudantes, identificar dificuldades e oferecer conteúdos personalizados. Essas ferramentas também fornecem dados que auxiliam professores no planejamento das aulas.
Já a Finlândia, reconhecida pela qualidade de seu sistema educacional, adotou uma abordagem mais criteriosa. O país investe em ferramentas digitais e inteligência artificial, mas defende que esses recursos devem complementar, e não substituir, a atuação do professor.
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