Cinema
Filme ‘Feito Pipa’ reinventa representação do Sertão com cores e afeto
Representante brasileiro na disputa pelo Oscar 2027, longa-metragem cearense busca se distanciar de imagens históricas ligadas à seca e à miséria no interior do Nordeste
O filme “Feito Pipa”, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de melhor filme internacional, propõe uma releitura do Sertão nordestino no cinema. Dirigido pelo cearense Allan Deberton, o longa-metragem investe em cores vibrantes, afeto e ludicidade para contar a história de Gugu, um menino de 11 anos criado pela avó materna.
O roteirista André Araújo explica que a obra busca atualizar o imaginário cinematográfico sobre a região. A proposta é se afastar das imagens tradicionalmente associadas ao Sertão — fotografia alaranjada, luz estourada, seca e miséria — e apresentar um território colorido que se manifesta através das pessoas e dos personagens.
Segundo Araújo, o colorido do filme aparece na própria identidade dos protagonistas, que se apropriam de um universo lúdico para se projetarem no mundo e afirmarem quem são.
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Território simbólico do cinema brasileiro
O interior nordestino é um dos territórios mais revisitados pela cinematografia brasileira. Desde produções inaugurais como “O Cangaceiro” (1953), passando pelos filmes do Cinema Novo — especialmente “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha —, a paisagem sertaneja foi transformada em símbolo das desigualdades sociais do país.
A pesquisadora Eliana Guerra, que desenvolve doutorado em História da Arte na Universidade de Salamanca, na Espanha, considera o Sertão um território simbólico construído pelo cinema a partir de questões profundas da sociedade brasileira: desigualdade, conflitos pela terra, religiosidade, violência, migrações, afetos e diferentes formas de existência.
Durante muito tempo, determinadas representações associaram esse território principalmente à seca, à pobreza, à violência e ao cangaço. Porém, o cinema brasileiro também transformou essas imagens ao longo das décadas, mostrando que existem múltiplos sertões, com diferentes paisagens, sujeitos, experiências e modos de vida.
Para Guerra, o Sertão funciona como um “dispositivo estético e político” do cinema nacional. A paisagem, a luz, os sons, os corpos e os modos de falar e viver participam da construção dos sentidos das obras. A dimensão política está na escolha de como representar o território, o que significa decidir quais sujeitos, histórias e experiências serão vistos e ouvidos.
Ampliação do repertório
Nas últimas décadas, diversos cineastas passaram a apresentar novas leituras do interior nordestino. Filmes como “O Céu de Suely” (2006), de Karim Aïnouz; “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; e “Paloma” (2022), de Marcelo Gomes, ajudaram a ampliar o repertório de experiências, paisagens e personagens associadas à região.
É nesse contexto de multiplicação dos olhares que “Feito Pipa” se insere. Araújo destaca que essas obras, cada uma à sua maneira, contribuíram para romper com uma representação cristalizada do Sertão no cinema brasileiro. Entre as referências mais próximas, ele cita especialmente a obra de Aïnouz gravada em Iguatu e “Pacarrete” (2019), estrelado por Marcélia Cartaxo e também dirigido por Deberton.
O roteirista afirma que o interesse era imaginar o Sertão pelo olhar do protagonista: um lugar que pode ser duro e atravessado por contradições, mas que também é colorido, afetivo, fantasioso e cheio de possibilidades. No filme, o Sertão não é apenas cenário, mas parte da maneira como Gugu inventa o mundo.
Filmagens em Quixadá
As filmagens foram realizadas em Quixadá, no Sertão Central cearense. A escolha do município resultou de uma pesquisa de locação em todo o Ceará, buscando um lugar que atendesse às demandas do roteiro em termos de paisagens e logística.
A origem da história, porém, nasceu fora do estado. Em 2012, Araújo conheceu São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, município parcialmente inundado pelas águas da barragem Armando Ribeiro Gonçalves. Em períodos de estiagem, estruturas da cidade antiga emergem, incluindo a torre da igreja — imagem que serviu de ponto de partida para o roteiro.
A cidade que reaparece e as memórias que se apagam foram inspirações centrais. No filme, a memória é tratada como sobrevivência.
São Rafael também aparece em um clássico do cinema brasileiro: “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, documentário que aborda a luta pela reforma agrária durante a ditadura militar. Embora com temas distintos, as duas obras demonstram como o Sertão tem sido ressignificado pelo cinema nacional, com a memória ocupando papel central nas narrativas.
Vínculo entre avó e neto
No mercado internacional, o filme recebeu o nome “Gugu’s World”, sintetizando a jornada do protagonista: um menino criado pela avó materna que, ao descobrir que ela está perdendo a memória, luta para não ir morar com o pai homofóbico, interpretado por Lázaro Ramos.
Araújo revela que esse vínculo entre avó e neto é um dos elementos que mais têm emocionado espectadores em diferentes festivais, como Berlim e Gramado. O roteirista conta que também foi criado por avó, assim como o personagem, e que a relação entre Gugu e Dilma tem tocado e emocionado os mais diversos públicos nas sessões realizadas pelo mundo.
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