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5 de outubro de 2026

História e Tecnologia

IA decifra carta militar de Napoleão que ficou 217 anos sem ser lida

Mensagem militar de 1809 destinada a marechal francês durante preparativos para guerra contra Áustria foi decodificada com auxílio do modelo GPT-6 Astra em seis horas

Por Anna Luiza Bastos
Inteligência artificial decifra carta secreta de Napoleão escrita há 217 anos
Inteligência artificial decifra carta secreta de Napoleão escrita há 217 anos

Uma carta militar produzida em 1809 durante os preparativos para a guerra entre a França e a Áustria foi decifrada com auxílio de inteligência artificial após permanecer sem solução por 217 anos. O documento trazia informações sobre a posição de tropas francesas e aliadas e instruções destinadas ao marechal Auguste de Marmont.

A mensagem havia sido catalogada entre as cifras históricas ainda não resolvidas do site Cryptiana. O documento original não sobreviveu em sua forma conhecida: o material disponível aos pesquisadores era uma reprodução de baixa resolução publicada em 1969 na revista militar francesa Revue historique des Armées.

A primeira linha da carta estava escrita em francês comum. Logo abaixo, havia 24 linhas com cerca de 1,3 mil sinais, formados por números, letras e símbolos desenhados à mão.

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GPT-6 Astra reconstruiu a cifra

O trabalho foi realizado pelo engenheiro de inteligência artificial Carter Church, da empresa de cibersegurança SentinelOne. Ele forneceu ao GPT-6 Astra uma única imagem da reprodução da carta e uma instrução para tentar solucionar o código.

Segundo Church, o modelo levou aproximadamente seis horas para realizar as diferentes etapas do processo. Primeiro, identificou e transcreveu os sinais manuscritos. Em seguida, encontrou uma chave parcial que ajudou a relacionar determinados símbolos às letras e desenvolveu um processo computacional para testar as demais possibilidades.

Entre os recursos empregados esteve um algoritmo de recozimento simulado (simulated annealing), utilizado para testar diferentes combinações e buscar uma solução compatível com as características da língua francesa. O modelo também comparou o conteúdo com documentos históricos relacionados ao período.

A reconstrução ainda apresenta algumas incertezas pontuais. Cinco sinais podem receber interpretações diferentes, mas, segundo Church, nenhuma delas modifica substancialmente o conteúdo geral da mensagem.

Mensagem foi escrita por ordem de Napoleão

Apesar de a carta estar associada a Napoleão, o documento foi escrito por Eugène de Beauharnais, seu enteado e vice-rei da Itália. A ordem para que Marmont recebesse as informações partiu de Napoleão em março de 1809.

O objetivo era informar o marechal sobre a disposição dos exércitos franceses e aliados antes da ofensiva austríaca. Marmont estava na região da Dalmácia, afastado das principais forças francesas, o que tornava necessário proteger as informações militares durante o transporte da correspondência.

A decifração permitiu identificar referências às posições de tropas francesas, bávaras, polonesas e saxônicas, além de informações sobre forças russas e austríacas. Parte desses dados coincide com outras ordens militares conhecidas do período.

Código completa trecho de documento histórico

A solução também ajudou a esclarecer uma passagem interrompida em registros publicados posteriormente sobre as ordens de Napoleão.

O documento recuperado contém uma orientação para que Marmont não se deixasse intimidar pela presença de determinadas forças inimigas. A reconstrução acrescenta o trecho que havia ficado incompleto nas versões históricas conhecidas.

A leitura proposta inclui uma referência a um “ajuntamento de plebeus”, tradução aproximada de um termo cuja interpretação ainda não é totalmente consensual entre os sinais reconstruídos. Por isso, especialistas tratam essa parte como uma leitura possível, e não como uma transcrição absolutamente definitiva.

Solução é considerada um avanço para a pesquisa histórica

A reconstrução foi analisada por Satoshi Tomokiyo, responsável pelo Cryptiana, que passou a considerar a cifra solucionada e corrigiu a data anteriormente atribuída ao documento. A carta havia sido catalogada originalmente como sendo de 1807, mas as evidências reunidas apontaram para 1809.

O caso chama atenção não apenas pela idade do documento, mas pela combinação de reconhecimento de escrita, pesquisa histórica e análise criptográfica em um único processo. Segundo Church, o material necessário para solucionar a cifra já estava disponível havia décadas, mas a tarefa exigiria um esforço considerável de especialistas em francês histórico, criptografia e documentação militar.

A experiência mostra como modelos de inteligência artificial podem ser utilizados como ferramentas de apoio à pesquisa para documentos que permaneceram esquecidos não necessariamente por serem indecifráveis, mas pelo tempo e pela especialização necessários para analisá-los.

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