Justiça
Polícia Federal refaz perícia em material apreendido sobre filme de Bolsonaro
Ministro Flávio Dino determinou análise de celulares e computadores da Operação Wi-Fi; investigação apura suposto desvio de verbas públicas para produção de Dark Horse
A Polícia Federal está periciando de novo todo o material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo na Operação Wi-Fi, que investiga suspeita de desvio de dinheiro público para o filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro. A ordem é do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre os itens que nunca tinham sido analisados está o celular da empresária Karina Ferreira da Gama, produtora do longa.
Os peritos federais examinam celulares, computadores e documentos levados a Brasília. Parte do material não tinha passado pelo Instituto de Criminalística paulista; outra parte está sendo reanalisada. A determinação consta da decisão de 13 de setembro em que Dino retirou o sigilo do inquérito.
Por que o caso está no STF
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O caso chegou ao Supremo porque a PF encontrou ligação entre a apuração paulista e o inquérito sobre emendas parlamentares relatado por Dino. O deputado Mário Frias (PL-SP) destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. Segundo a PF, recursos ligados à rede do instituto chegaram à Go Up Entertainment, produtora do filme e também ligada a ela.
O contrato do Wi-Fi
O ICB fechou com a Prefeitura de São Paulo, em 2024, um contrato de R$ 108 milhões para instalar 5 mil pontos do programa WiFi Livre SP na periferia. No relatório tornado público em 13 de setembro, a Polícia Civil fala em “consistentes suspeitas” de que parte desse dinheiro tenha ido para Dark Horse.
O relatório compara preços. O ICB recebia R$ 1.800 mensais por ponto. A Prodam, empresa de tecnologia da própria prefeitura, cobrava R$ 230 pela instalação e R$ 306 pela manutenção mensal.
A polícia também aponta que o ritmo de instalação acompanhou o calendário eleitoral. Eram 1.605 pontos ativos no fim de outubro de 2024 e apenas 3,2 mil em junho de 2025. O restante da meta não foi entregue. Pelas contas dos investigadores, a prefeitura deveria ter pago cerca de R$ 43 milhões pelo serviço efetivamente prestado, mas repassou R$ 69 milhões: R$ 26 milhões a mais.
O Tribunal de Contas do Município chegou a apontar mais de 20 questionamentos no edital, entre eles a escolha de uma ONG sem experiência em telecomunicações. Depois de recurso da prefeitura, porém, o tribunal liberou a contratação.
O que dizem os citados
A prefeitura afirma que não há irregularidade no contrato e que o serviço foi prestado conforme o acordado. Karina Gama diz que não praticou nenhum ilícito e que entregou mais de 20 mil páginas de documentos à investigação.
Outra frente: Flávio e Vorcaro
O financiamento de Dark Horse também é alvo de outro inquérito no STF, relatado por André Mendonça. Nesse caso, o investigado é o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). A PF apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas na captação de recursos com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Segundo a investigação, Vorcaro enviou US$ 12,33 milhões para o filme, de um acordo de US$ 24 milhões. Mendonça autorizou o inquérito em 22 de julho, e o sigilo foi levantado em setembro, a pedido do presidente do STF, Edson Fachin.
Flávio admite ter procurado Vorcaro para financiar o filme, mas nega irregularidades: “Não há um centavo de dinheiro público”. Sobre a Operação Wi-Fi, disse que o caso “não tem nada a ver com o filme”. A nova perícia da PF deve indicar se as duas frentes de investigação se encontram.
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