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2 de outubro de 2026

Ciência

Redução de ultraprocessados é associada à melhora de sintomas de depressão, aponta estudo

Estudo da Universidade da Califórnia acompanhou 20 pessoas e observou melhora em três medidas da doença após corte de mais de 85% no consumo desses alimentos

Por Anna Luiza Bastos Atualizado às 15:14
Redução de ultraprocessados é associada a melhora de sintomas de depressão

Reduzir drasticamente o consumo de alimentos ultraprocessados pode estar associado à melhora dos sintomas de depressão. Essa foi a conclusão preliminar de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, e publicado em 23 de setembro na revista científica JAMA Psychiatry.

O ensaio clínico envolveu 20 adultos com diagnóstico de depressão e alto consumo de ultraprocessados. Durante a intervenção alimentar, os participantes diminuíram em mais de 85% a ingestão desses produtos e apresentaram melhora em diferentes escalas utilizadas para avaliar sintomas depressivos. Os resultados também apontaram uma redução mais modesta nos indicadores de ansiedade.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que a investigação teve caráter exploratório e buscou avaliar a viabilidade de uma intervenção alimentar desse tipo. Portanto, os resultados ainda não permitem afirmar que a retirada de ultraprocessados seja capaz de tratar a depressão.

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Como a pesquisa foi realizada

O estudo utilizou um modelo experimental cruzado, no qual os mesmos participantes passaram por dois períodos de alimentação: um seguindo a dieta habitual e outro com consumo reduzido de ultraprocessados. A ordem das intervenções foi definida aleatoriamente, permitindo comparar os resultados dentro do próprio grupo.

A pesquisa contou com 20 voluntários, com idade média de aproximadamente 44 anos. Quatorze participantes eram mulheres, e todos apresentavam depressão, consumo elevado de ultraprocessados e pelo menos uma alteração metabólica ou relacionada ao peso, conforme os critérios adotados pelos pesquisadores.

Durante a fase de alimentação com baixo consumo desses produtos, os participantes receberam orientações, mas foram responsáveis por escolher e comprar os próprios alimentos. Ao final, 19 pessoas haviam concluído o estudo.

A equipe identificou diferenças nos resultados de três instrumentos de avaliação da depressão: PHQ-9, MADRS e QIDS. As pontuações foram menores durante o período de alimentação com poucos ultraprocessados do que durante a dieta habitual. Os indicadores de ansiedade, medidos pela escala GAD-7, também diminuíram.

Os resultados reforçam a necessidade de investigar a relação entre alimentação e saúde mental, mas o tamanho reduzido da amostra limita a possibilidade de generalizar as conclusões para toda a população.

O que pode explicar a relação entre alimentação e saúde mental

Uma das hipóteses investigadas envolve a comunicação entre o intestino e o cérebro. Segundo os pesquisadores da UCSF, alterações na barreira intestinal e processos inflamatórios podem participar de mecanismos relacionados ao funcionamento cerebral e ao humor.

A hipótese é que determinados padrões alimentares possam afetar o organismo de maneiras que ultrapassam os efeitos sobre o peso e o metabolismo. Entretanto, o estudo não demonstrou diretamente que os ultraprocessados tenham provocado alterações intestinais ou inflamação responsáveis pela melhora dos sintomas depressivos.

Outro aspecto levantado pelos autores é a dificuldade de reduzir o consumo desses produtos. O sabor, o preço e a praticidade podem favorecer sua presença frequente na alimentação. A combinação de açúcar, sal e gordura também pode aumentar a atratividade de determinados alimentos e estimular o consumo repetido.

Esses fatores ajudam a contextualizar o desafio de mudar hábitos alimentares, mas não significam que todos os alimentos ultraprocessados tenham os mesmos efeitos ou que exista um mecanismo único capaz de explicar sua relação com a depressão.

O que a pesquisa ainda não responde

Por ser um estudo-piloto, a investigação não foi dimensionada para estabelecer definitivamente a eficácia da intervenção sobre os sintomas depressivos. Além do número pequeno de participantes, a alimentação foi avaliada com base em informações fornecidas pelos próprios voluntários, sem uma medida objetiva direta de todo o consumo alimentar.

Também não foi possível determinar quais componentes dos alimentos, se algum deles isoladamente, estariam associados às mudanças observadas. A intervenção alterou o padrão alimentar como um todo, e não apenas a ingestão de um ingrediente específico.

A equipe da UCSF considera os resultados uma base para uma investigação maior, com mais participantes e métodos capazes de aprofundar a avaliação dos efeitos e dos possíveis mecanismos envolvidos. O recrutamento para a próxima etapa foi previsto para começar em 2028.

O que são alimentos ultraprocessados

Ultraprocessados são produtos formulados industrialmente que frequentemente contêm ingredientes e aditivos utilizados para modificar sabor, textura, aparência e conservação. Entre os exemplos estão refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, refeições prontas e diversos produtos de fast food.

A presença desses alimentos na dieta, por si só, não permite concluir que uma pessoa desenvolverá depressão. A saúde mental envolve múltiplos fatores biológicos, psicológicos e sociais, e os hábitos alimentares representam apenas uma das dimensões que podem ser investigadas.

Os resultados publicados na JAMA Psychiatry acrescentam evidências preliminares à discussão sobre a relação entre nutrição e saúde mental. Até que estudos maiores esclareçam a dimensão e as causas dessa associação, a redução de ultraprocessados deve ser entendida como uma possível estratégia de promoção da saúde, e não como substituta dos tratamentos recomendados para a depressão.

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