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1 de outubro de 2026

Música

Rashid relembra saga de dois cancelamentos no Lollapalooza: ‘É cansativo viver momentos históricos’

Rapper teve shows interrompidos por tempestades em 2019 e 2022 e quase recusou convite para terceira tentativa, que finalmente aconteceu em 2023

Por Daniel Caixeta
Rashid relembra saga de dois cancelamentos no Lollapalooza: 'É cansativo viver momentos históricos'
Rashid relembra saga de dois cancelamentos no Lollapalooza: 'É cansativo viver momentos históricos'

O rapper Rashid transformou uma sequência de imprevistos no Lollapalooza em parte marcante de sua trajetória. O artista teve duas apresentações canceladas pelo mau tempo, em 2019 e 2022, antes de finalmente conseguir subir ao palco e concluir seu show na edição de 2023.

Em 2019, Rashid estava prestes a realizar uma apresentação que considerava um dos grandes objetivos de sua carreira quando fortes chuvas e raios interromperam a programação do festival. Naquele período, o rapper também enfrentava um momento delicado na vida pessoal, relacionado à saúde de sua esposa, o que aumentava a importância daquele show para ele e sua equipe.

“É cansativo viver momentos históricos. Que coisa bizarra”, comentou Rashid ao relembrar o episódio.

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Três anos depois, com o retorno do Lollapalooza após a pausa provocada pela pandemia, o artista recebeu um novo convite. A história, porém, se repetiu: outra tempestade interrompeu a programação e impediu que ele realizasse a apresentação. “Foi um balde de água fria dobrado”, afirmou.

Depois dos dois episódios, Rashid chegou a considerar recusar um terceiro convite. O receio era passar novamente pela mesma situação e transformar os cancelamentos em uma marca negativa de sua carreira. “Meu medo era acontecer terceira vez. Você vira piada eterna”, explicou.

Com o incentivo de uma amiga, decidiu aceitar. Em 2023, finalmente conseguiu realizar o show. Ao lembrar do momento, Rashid destacou a dimensão do público presente e afirmou que nenhum dos anos anteriores teria proporcionado uma apresentação com aquela mesma atmosfera. Ao deixar o palco, comparou a sensação à de uma vitória da seleção brasileira: “Parecia que o Brasil tinha vencido a Copa”.

Novo álbum retoma referências do rap

A experiência com as tempestades também ganhou reflexo no novo trabalho de Rashid. Intitulado “Cumulonimbus”, o álbum faz referência ao tipo de nuvem associado à formação de tempestades, raios e tornados.

Lançado em 2026, o disco tem 15 faixas e retoma elementos do rap que fizeram parte da formação artística do rapper. O trabalho conta com participações de Emicida, Projota, Luedji Luna, Kamau, MC Neguinho do Kaxeta, Rael, Paula Lima, Jota Ghetto, Slim Rimografia e Flávia K.

“Ele coloca na mesa tudo o que amo e deixo que as pessoas falem que estavam sentindo falta disso”, afirmou Rashid. Segundo o artista, a proposta não é fazer um disco de acusações, mas recuperar valores ligados à cultura hip hop.

“Parece que estamos nos distanciando de valores que fundamentaram nosso movimento. Isso é assinar nossa permissão para o esquecimento”, declarou.

Batalhas de rima ganharam novo alcance

Rashid também avaliou a transformação das batalhas de rima, que deixaram de ocupar apenas espaços ligados diretamente ao hip hop e passaram a alcançar um público mais amplo.

“Na batalha, tem gente que não necessariamente escuta rap, mas gosta da batalha. São pessoas que escutam outros gêneros musicais”, observou.

Para o rapper, esse crescimento também tem impacto na formação de novos artistas e ouvintes. Ele considera que conhecer a história do movimento ajuda o público a compreender melhor as referências e técnicas utilizadas pelos MCs.

“Quanto mais você conhecer a história, melhor para você”, afirmou.

Do MySpace à carreira consolidada

Rashid também voltou aos primeiros anos de sua carreira, quando utilizava o MySpace para divulgar suas músicas. Na época, alcançar 5 mil reproduções já era motivo de comemoração.

“Foi meu Grammy. E nem eram plays meus, eram de outras pessoas”, brincou o rapper, comparando aquele período a “colocar uma carta na garrafa e jogar no mar”.

A trajetória também foi influenciada pelas experiências vividas entre São Paulo e Minas Gerais durante a adolescência. Ele descreveu as diferenças entre os dois ambientes e as distintas formas de vulnerabilidade que conheceu.

“A periferia de São Paulo é completamente urbana, cinza, falta de dinheiro. No interior de Minas Gerais, era roça, amigos na plantação de cana e alambique. Pobrezas diferentes”, relatou.

Política e referências musicais

Ao falar sobre política no hip hop, Rashid afirmou que o posicionamento crítico faz parte da própria origem do movimento.

“O posicionamento é inato à contracultura. Ele já está ali”, declarou. O rapper também afirmou que o hip hop surgiu ligado a uma tradição política de esquerda e a questões relacionadas aos trabalhadores e às populações marginalizadas.

Entre suas principais referências musicais está Milton Nascimento. A admiração ganhou força depois que Rashid descobriu que sua avó materna havia conhecido o cantor.

“Quando eu soube, meu amor virou fanatismo. Não mexe com meu Milton Nascimento!”, afirmou.

Com “Cumulonimbus”, Rashid reúne referências acumuladas desde o início da carreira e volta a colocar o rap no centro de sua produção, ao mesmo tempo em que amplia a discussão sobre a preservação da memória e dos valores que ajudaram a formar a cultura hip hop.

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