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7 de outubro de 2026

Educação

Estudo aponta práticas que podem melhorar o ensino de matemática nas escolas públicas

Estudo do Iede analisou seis redes municipais com bons resultados na disciplina e identificou práticas que podem ser replicadas, desde materiais manipuláveis até rotinas de aula estruturadas

Por Anna Luiza Bastos Atualizado às 15:13
Pesquisa mapeia estratégias bem-sucedidas no ensino de matemática no Brasil

Melhorar o desempenho em matemática nos primeiros anos do ensino fundamental não depende de uma única metodologia ou de um material específico. Um estudo realizado pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com a B3 Social e com apoio da Fundação Lemann, identificou um conjunto de práticas adotadas por redes municipais que vêm mantendo resultados consistentes na disciplina.

A pesquisa, intitulada “Matemática para a vida: o que experiências nacionais nos ensinam e o que precisamos desenvolver”, analisou as redes de Casinhas (PE), Joaquim Távora (PR), Ji-Paraná (RO), Miracema (RJ), Junqueirópolis (SP) e Anicuns (GO). Cruz (CE) também participou da iniciativa como município-piloto. A seleção considerou redes que apresentam bons resultados de forma consistente, inclusive entre estudantes de menor nível socioeconômico.

O levantamento parte de um cenário nacional ainda marcado por dificuldades. Segundo dados do Saeb, 51% dos estudantes do 5º ano alcançaram aprendizagem considerada adequada em matemática em 2025. O resultado representa avanço em relação aos 44% registrados em 2023, mas também significa que praticamente metade dos alunos ainda não atingiu o nível esperado. Dados compilados pelo Todos Pela Educação apontam evolução semelhante e mostram que as desigualdades permanecem entre diferentes localidades.

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No cenário internacional, o quadro também é desafiador. No TIMSS 2023, aplicado a estudantes do 4º ano, o Brasil alcançou média de 400 pontos em matemática, 103 pontos abaixo da média dos países desenvolvidos. Segundo o Iede, 51% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível básico de desempenho.

Os resultados mais recentes do Pisa também mostram dificuldades persistentes. De acordo com o Iede, 72% dos estudantes brasileiros de 15 anos avaliados no Pisa 2025 ficaram abaixo do nível básico de proficiência em matemática.

O que as redes que apresentam bons resultados fazem

A pesquisa identificou que as iniciativas com melhores resultados não funcionam de maneira isolada. A combinação entre planejamento, acompanhamento pedagógico, avaliação e práticas de sala de aula aparece como um dos principais pontos em comum entre as redes analisadas.

Um dos exemplos é o uso de materiais manipuláveis, como ábacos, dobraduras e objetos recicláveis. A proposta é permitir que as crianças tenham contato concreto com conceitos matemáticos e possam testar diferentes possibilidades antes de chegar à representação abstrata.

Outra recomendação é transformar o próprio ambiente escolar em um recurso de aprendizagem. As chamadas salas “matematicamente ricas” podem utilizar retas numéricas, tabuadas, calendários, formas geométricas, moedas e cédulas como elementos que façam parte das atividades cotidianas, e não apenas da decoração.

A pesquisa também destaca avaliações elaboradas pelas próprias redes para identificar dificuldades específicas e orientar as aulas seguintes. Dessa forma, os resultados das avaliações deixam de servir apenas para medir o desempenho e passam a ajudar o professor a decidir o que precisa ser retomado.

Professor tem papel central na aprendizagem

A rotina em sala de aula é outro ponto destacado pelo estudo. Entre as redes analisadas, aparecem práticas estruturadas que incluem revisão de conteúdos anteriores, explicação do professor, resolução coletiva de exemplos, realização de atividades e correção.

A repetição e a revisão são utilizadas para desenvolver a fluência nos cálculos, mas o estudo alerta que isso não deve transformar as aulas em treinamento mecânico.

Os estudantes também precisam resolver problemas, investigar possibilidades, comparar diferentes estratégias e explicar o caminho utilizado para chegar a uma resposta. O erro, nesse processo, pode ser utilizado pelo professor para identificar como a criança está raciocinando e quais conceitos ainda precisam ser trabalhados.

Maria Helena Bravo, gerente de pesquisas do Iede, destaca justamente a importância dessa mediação. Segundo ela, uma atividade ou jogo não gera aprendizagem automaticamente: o professor precisa relacioná-los a um objetivo, fazer perguntas, incentivar a explicação das estratégias e organizar o conhecimento construído pelos alunos.

A ideia também se aplica ao uso de recursos visuais e materiais concretos. Um cartaz com uma tabuada ou uma reta numérica na parede, por exemplo, só ganha função pedagógica quando é utilizado durante as atividades.

Formação e gestão também fazem diferença

Os resultados apresentados pela pesquisa não se restringem ao trabalho realizado dentro da sala de aula. A organização das secretarias municipais e das equipes pedagógicas também aparece como elemento importante.

Entre as recomendações estão a definição clara das aprendizagens esperadas, a criação de materiais e rotinas compartilhados e o acompanhamento próximo das escolas pelas equipes técnicas. Nesse modelo, a coordenação pedagógica funciona como elo entre as decisões da secretaria e aquilo que efetivamente acontece com professores e estudantes.

A formação dos profissionais também é apontada como prioridade. O estudo identifica a necessidade de equipes pedagógicas preparadas, coordenadores atuantes e profissionais que possam oferecer apoio aos professores, inclusive em questões relacionadas à inclusão.

As próprias redes, porém, relatam obstáculos para colocar essas medidas em prática. Entre eles estão a falta de profissionais especializados em matemática, equipes sobrecarregadas, formações excessivamente genéricas e a dificuldade de manter políticas educacionais após mudanças de governo.

Também foram identificados problemas relacionados à infraestrutura. Materiais pedagógicos podem acabar utilizados apenas como decoração quando não existe planejamento para incorporá-los às aulas. Em algumas escolas, salas pequenas e quentes ainda dificultam atividades que exigem maior movimentação dos estudantes.

O desafio é transformar boas práticas em política contínua

A principal conclusão do estudo é que não existe uma solução isolada para recuperar a aprendizagem matemática. Materiais, avaliações, formação, gestão e práticas pedagógicas precisam estar conectados a objetivos claros e ser acompanhados ao longo do tempo.

A experiência das redes pesquisadas ganha relevância justamente porque parte de municípios que conseguiram manter resultados positivos mesmo diante de limitações de recursos e de desigualdades socioeconômicas. O Iede busca, a partir desses casos, identificar elementos que possam orientar outras redes públicas.

O desafio agora é fazer com que essas experiências não dependam apenas de iniciativas pontuais ou de determinadas gestões. Para que os avanços apareçam de forma mais ampla, as práticas precisam ser incorporadas às políticas das redes, acompanhadas pelas equipes pedagógicas e adaptadas às necessidades de cada escola.

Em um cenário no qual metade dos alunos do 5º ano ainda não alcança o nível adequado em matemática, o estudo aponta que melhorar os resultados passa menos pela adoção de uma “fórmula” e mais pela construção de uma rotina educacional consistente, na qual professores tenham apoio, gestores acompanhem o trabalho e os estudantes sejam estimulados a compreender não apenas o resultado de uma conta, mas também o raciocínio utilizado para chegar até ele.

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