Educação
Brasil tem 20% de abandono no ensino médio, acima da média internacional
Relatório da OCDE mostra que apenas 79% dos estudantes brasileiros concluem a etapa em até dois anos após o prazo previsto, contra média de 85% em outros países
Cerca de 20% dos estudantes que ingressam no ensino médio no Brasil não concluem a etapa no período considerado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O índice está acima da média dos países analisados, de 12%, segundo o relatório Education at a Glance 2026, divulgado pela organização.
De acordo com o levantamento, 79% dos brasileiros que iniciam o ensino médio conseguem concluí-lo dentro do período analisado, enquanto a média internacional é de 85%. A diferença mostra que, apesar dos avanços registrados no acesso e na escolarização dos jovens, a permanência e a conclusão ainda representam desafios para o sistema educacional brasileiro.
Os resultados devem ser interpretados de acordo com o recorte utilizado pela OCDE. A parcela que não conclui a etapa no período analisado não corresponde necessariamente, em todos os casos, a estudantes que abandonaram definitivamente os estudos.
Continua depois da publicidade
Diferença entre homens e mulheres
A desigualdade entre homens e mulheres aparece de forma significativa nos indicadores de conclusão. Entre os estudantes brasileiros do sexo masculino, 23% não concluem o ensino médio no período considerado, enquanto entre as mulheres o percentual é de 17%.
Na média dos países analisados pela OCDE, os índices são de 14% entre os homens e 10% entre as mulheres. No Brasil e em Israel, a diferença entre os gêneros chega a oito pontos percentuais.
A organização aponta que as mulheres apresentam uma taxa de conclusão sete pontos percentuais superior à dos homens. O resultado coloca em evidência diferenças de trajetória escolar que não se explicam apenas pelo acesso à educação, mas também pelas condições que influenciam a permanência dos estudantes.
Evasão é resultado de vários fatores
O relatório destaca que o afastamento da escola geralmente não ocorre a partir de um único episódio. A trajetória até a não conclusão pode envolver uma combinação de fatores pessoais, escolares e relacionados ao próprio sistema educacional.
Entre os elementos associados ao risco de afastamento estão baixo desempenho acadêmico, faltas frequentes, desmotivação e experiências escolares anteriores. Condições socioeconômicas, ambiente escolar e disponibilidade de apoio aos estudantes também podem influenciar a continuidade dos estudos.
A OCDE chama atenção ainda para fatores relacionados à organização dos sistemas educacionais. A repetência e a oferta limitada de determinadas modalidades de formação profissional, por exemplo, podem estar associadas a maiores riscos de não conclusão.
Por isso, as estratégias de prevenção precisam considerar tanto os sinais de afastamento já identificados quanto as condições que podem contribuir para que esse processo se acumule ao longo da trajetória escolar.
Brasil avançou na escolarização
Apesar das dificuldades, os dados também mostram uma melhora no nível educacional da população brasileira ao longo dos últimos anos.
Entre os brasileiros de 25 a 34 anos, caiu a parcela daqueles que não concluíram o ensino médio. O indicador passou de 35% em 2016 para 26% em 2024, uma redução de nove pontos percentuais no período.
Outro indicador citado no levantamento é o de jovens de 18 a 24 anos que não estão empregados, estudando ou participando de algum tipo de treinamento. A proporção também apresentou queda ao longo da série analisada.
Os dados fazem parte de um cenário de expansão da escolarização brasileira, mas mostram que o avanço no acesso não elimina as dificuldades relacionadas à conclusão e à transição dos jovens para o mercado de trabalho ou para outras formas de formação.
Professores também enfrentam dificuldades
O relatório dedica parte da análise às condições de trabalho dos professores. No Brasil, 44,3% dos docentes dos anos finais do ensino fundamental afirmam estar satisfeitos com suas condições de trabalho, desconsiderando a remuneração. Na média da OCDE, o índice chega a 68,4%.
A avaliação sobre os salários é ainda mais baixa. Apenas 22,3% dos professores brasileiros dizem estar satisfeitos com a remuneração, contra 38,7% na média internacional.
Outro dado mostra que, em 2022, 10,3% dos professores plenamente qualificados do ensino fundamental e médio em escolas públicas saíram da profissão por aposentadoria ou exoneração.
A situação ocorre em um contexto de mudanças demográficas. Entre 2015 e 2024, o número de professores dos anos iniciais do ensino fundamental cresceu 4%, enquanto a quantidade de estudantes nessa etapa caiu 7%.
A OCDE também projeta redução de 3% na população brasileira de 5 a 14 anos entre 2024 e 2033. Essa mudança demográfica pode alterar a demanda por professores em determinadas etapas da educação, embora o impacto dependa de outros fatores, como tamanho das turmas, distribuição regional dos profissionais e políticas educacionais.
O desafio vai além de colocar o aluno na escola
Os números do Education at a Glance 2026 mostram uma trajetória marcada por avanços na escolarização brasileira, mas também por dificuldades para garantir que os estudantes permaneçam e concluam a educação básica.
A diferença entre homens e mulheres, as condições socioeconômicas, o desempenho escolar e as condições de trabalho dos professores apontam para um desafio que envolve diferentes partes do sistema. Mais do que ampliar o acesso, os dados reforçam a importância de criar condições para que o estudante consiga permanecer na escola e completar sua formação.
- Haddad critica escolas cívico-militares e promete não ampliar modelo em SP
- Paraná lidera Pisa ajustado por renda; 21 estados ficam abaixo do esperado em matemática
- Tarcísio promete reformular carreira nas Etecs e ampliar vagas do Provão Paulista
- Escolas brasileiras enfrentam desafios com uso da inteligência artificial em sala de aula
Participe da conversa
Acesse sua conta Mancheck para comentar.
Entrar