Pular para o conteúdo
28 de setembro de 2026

Economia

Modelos chineses de IA alcançam 55% do uso corporativo e desafiam gigantes dos EUA

DeepSeek e Qwen avançaram com preços até 12 vezes menores que concorrentes americanos, levando Congresso dos EUA a investigar riscos geopolíticos

Por Anna Luiza Bastos Atualizado às 08:32
Modelos chineses de IA alcançam 55% do uso corporativo e desafiam gigantes dos EUA
Modelos chineses de IA alcançam 55% do uso corporativo e desafiam gigantes dos EUA

A inteligência artificial chinesa conquistou mais da metade do mercado empresarial em duas das principais plataformas globais de acesso a modelos de IA em 2026, impulsionada por preços muito mais baixos que os praticados por gigantes americanas e desempenho crescente em testes técnicos.

No OpenRouter, serviço que conecta empresas a diversos fornecedores de IA, os modelos chineses saltaram de uma fatia entre 6% e 13% do total de tokens processados em fevereiro para uma participação entre 57% e 67% na segunda semana de setembro. Em meados do ano, a presença chinesa já estava em cerca de 61% do volume total.

O avanço se concentra especialmente em empresas do chamado Sul Global — grupo de 82 países da América Latina, África e Ásia —, onde mais de dois terços dos tokens consumidos rodam em sistemas chineses. Cerca de metade do volume total da plataforma, porém, ainda vem de empresas americanas.

Continua depois da publicidade

Guerra de preços

A diferença de custos é uma das principais explicações para a mudança. O modelo DeepSeek V3.1 cobra US$ 0,25 por milhão de tokens de entrada, enquanto o Claude 3.5 Sonnet, da Anthropic, cobra US$ 3 — uma diferença de 12 vezes. Em abril, a DeepSeek anunciou um corte de 75% no preço do modelo V4-Pro e tornou o desconto permanente.

O Qwen, da Alibaba, pratica valores a partir de US$ 0,40 por milhão de tokens na versão Plus, contra US$ 5 do Claude Opus, modelo topo de linha da Anthropic — cerca de 12,5 vezes menos.

Peter Walker, responsável por análises do OpenRouter, afirmou que os modelos chineses lançados em 2026 conseguem executar casos de uso avançados em tarefas agênticas, especialmente programação, de maneira que não era possível no fim de 2025. Ele destacou que esses sistemas são “incrivelmente competitivos em custo” comparados aos laboratórios americanos.

Harpreet Arora, chefe de infraestrutura agêntica da plataforma Vercel, disse que os modelos chineses estão “se tornando capazes o suficiente para mais tarefas a um custo muito mais baixo”. Segundo ele, quando um modelo atinge o padrão de qualidade necessário, a diferença de preço se torna irresistível, embora as empresas ainda prefiram modelos americanos para as tarefas mais complexas.

Desempenho técnico em alta

A competição deixou de ser apenas sobre preço. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) avaliou em maio que o DeepSeek V4 Pro estava cerca de oito meses atrás da fronteira tecnológica americana. Em julho, o mesmo instituto considerou o modelo chinês GLM-5.2 comparável a um sistema americano lançado apenas seis meses antes, indicando redução da distância.

Em testes específicos de programação de interfaces, o Qwen3.8-Max ficou em quarto lugar na Frontend Code Arena, atrás apenas do Claude Opus 5 em esforço máximo e do chinês Kimi K3, e empatado com o próprio Opus 5 em esforço alto. Os modelos americanos mais avançados ainda lideram a maioria dos testes gerais de desempenho.

A família Qwen soma mais de 1 bilhão de downloads e serve de base para cerca de 40% dos novos modelos derivados publicados no Hugging Face, plataforma de compartilhamento de código aberto.

Reação americana

OpenAI e Anthropic anunciaram nesta semana novos modelos mais baratos. A Anthropic lançou o Claude Opus 5.5 com redução de 40% no custo em relação ao modelo anterior. Dianne Penn, chefe de gestão de produtos da empresa, afirmou que o objetivo é tornar as respostas mais eficientes para usar menos tokens.

No front político, dois comitês da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos abriram investigações sobre o impacto da adoção crescente de modelos chineses. A lei orçamentária de defesa americana para o ano fiscal de 2026 obriga o Departamento de Defesa a excluir qualquer IA da DeepSeek ou de sua controladora, a gestora High-Flyer, e proíbe empresas contratadas pelo governo de usar essas ferramentas.

A Zhipu AI, dona do modelo GLM, está desde janeiro de 2025 em uma lista de entidades do governo americano com restrição presumida de acesso à tecnologia dos Estados Unidos.

Daniel Remler, pesquisador sênior do Centro para uma Nova Segurança Americana (CNAS), afirmou que a IA chinesa representa “riscos econômicos e de segurança reais” para os Estados Unidos. Segundo ele, a preocupação final é que a integração de modelos chineses puxe países para uma esfera de influência tecnológica chinesa que se solidifica em alinhamento geopolítico.

O tema foi discutido na reunião entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping durante esta semana, com foco no equilíbrio entre competição tecnológica e cooperação no campo da inteligência artificial.

Participe da conversa

Acesse sua conta Mancheck para comentar.

Entrar