Saúde
Por que deixamos tudo para a última hora? Ciência explica o que está por trás da procrastinação
Pesquisas em psicologia e neurociência mostram que procrastinar vai além da falta de disciplina e pode funcionar como uma tentativa de aliviar emoções desconfortáveis
Adiar uma tarefa importante mesmo sabendo que ela precisa ser feita é uma experiência comum. Seja um trabalho da faculdade, um relatório profissional, uma consulta ou até uma conversa difícil, muitas pessoas acabam deixando determinadas atividades para depois, mesmo quando sabem que isso pode trazer consequências.
Durante muito tempo, esse comportamento foi associado principalmente à preguiça, à falta de disciplina ou à dificuldade de organizar o tempo. Pesquisas mais recentes, porém, apresentam uma explicação mais complexa: em muitos casos, a procrastinação está relacionada à maneira como lidamos com emoções desagradáveis.
A psicóloga Fuschia Sirois, da Universidade de Durham, é uma das pesquisadoras que estudam essa relação. Segundo essa perspectiva, a pessoa nem sempre está tentando evitar a tarefa em si, mas o desconforto emocional provocado por ela, como ansiedade, tédio, insegurança, frustração ou medo de fracassar.
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O alívio imediato pode reforçar o adiamento
Quando alguém decide deixar uma atividade desagradável para depois, pode experimentar uma sensação imediata de alívio. Em vez de enfrentar naquele momento a ansiedade ou a dificuldade associada à tarefa, a pessoa escolhe uma atividade mais prazerosa ou menos exigente.
O problema é que esse alívio tende a ser temporário. A tarefa continua pendente e, posteriormente, pode vir acompanhada de culpa, estresse e preocupação. Esse ciclo pode fazer com que o comportamento se repita sempre que surge uma atividade capaz de provocar emoções negativas.
A própria definição adotada pela APA diferencia procrastinação de qualquer simples atraso. O comportamento envolve um adiamento voluntário e desnecessário de uma tarefa que a pessoa pretendia realizar, mesmo sabendo que a demora poderá trazer consequências negativas.
Isso também explica por que técnicas de organização, como agendas, listas e aplicativos, nem sempre são suficientes para quem procrastina de maneira recorrente. Elas podem ajudar no planejamento, mas não necessariamente resolvem a emoção que está sendo evitada.
O cérebro também considera o futuro na hora de decidir
Outro aspecto estudado pela ciência é a maneira como valorizamos recompensas que estão distantes no tempo. Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports, em 2024, encontrou associação entre maior tendência a descontar recompensas futuras e níveis mais elevados de procrastinação em uma tarefa realizada no mundo real.
Na prática, isso significa que uma atividade com benefício distante pode parecer menos atraente no presente. Estudar hoje para obter uma boa nota depois, começar um projeto cujo resultado só aparecerá meses mais tarde ou organizar as finanças pensando no futuro pode perder espaço diante de algo que oferece satisfação imediata.
Pesquisas sobre os mecanismos cognitivos da procrastinação também apontam que características da tarefa, como o quanto ela parece desagradável, o valor do benefício futuro e o tempo necessário para recebê-lo, influenciam a decisão de começar ou adiar.
Por isso, procrastinar não significa necessariamente permanecer sem fazer nada. Muitas vezes, a pessoa substitui a tarefa principal por outras atividades: arrumar a casa, verificar mensagens, assistir a vídeos ou realizar pequenas tarefas que oferecem uma sensação maior de recompensa naquele momento.
Nem todo adiamento é procrastinação
Os pesquisadores também fazem uma distinção importante entre procrastinar e simplesmente escolher fazer algo mais tarde.
Uma pessoa pode adiar uma atividade porque precisa de mais informações, porque está priorizando uma tarefa urgente ou porque decidiu conscientemente que aquele não é o melhor momento para executá-la. Nesse caso, o adiamento pode ser estratégico.
A procrastinação, por outro lado, envolve um atraso desnecessário, geralmente acompanhado da consciência de que a decisão poderá causar problemas posteriormente.
A revisão publicada na Nature Reviews Psychology destaca que a procrastinação é uma forma comum de dificuldade de autorregulação e está associada a consequências negativas em diferentes áreas da vida. O trabalho também aponta que o fenômeno envolve diferentes fatores e não pode ser explicado por uma única causa.
Culpa e autocrítica podem alimentar o ciclo
Outro elemento importante é a maneira como a pessoa reage depois de procrastinar. Sentir culpa ou se criticar excessivamente pode aumentar o desconforto relacionado à tarefa e, consequentemente, tornar ainda mais difícil começar.
Pesquisas discutidas pela APA apontam a autocompaixão como uma possível ferramenta para interromper esse ciclo. A proposta não é ignorar responsabilidades ou aceitar indefinidamente o adiamento, mas reduzir a autocrítica para conseguir lidar melhor com a emoção e voltar à tarefa.
Assim, compreender a procrastinação apenas como falta de disciplina pode deixar de lado uma parte importante do comportamento. A evidência científica aponta para uma combinação de fatores emocionais, cognitivos, motivacionais e relacionados à autorregulação.
Em vez de perguntar somente “por que não consigo fazer isso?”, pode ser mais útil observar o que acontece antes do adiamento: a tarefa provoca ansiedade? Parece grande demais? Existe medo de errar? O benefício está distante demais? Ou há alguma atividade mais prazerosa oferecendo uma recompensa imediata?
Identificar esses gatilhos pode ser o primeiro passo para desenvolver estratégias mais adequadas e transformar o “depois eu faço” em uma ação concreta.
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