Literatura
Escritor haitiano-canadense rebate acusação de usar IA em livro premiado na França
Thelyson Orélien, autor de romance finalista de prêmios literários franceses, nega ter recorrido a inteligência artificial e afirma ser alvo de ataques racistas
O escritor haitiano-canadense Thelyson Orélien tornou-se centro de uma polêmica que sacudiu o meio literário francês após ser acusado de ter utilizado inteligência artificial para escrever seu romance de estreia, “C’était ça ou mourir” (Era isso ou morrer). O autor nega veementemente as alegações e denuncia estar sendo vítima de ataques racistas.
O livro, lançado no Canadá em março e na França em agosto pela editora Grasset, transformou-se em fenômeno editorial, vendendo cerca de 35 mil exemplares e conquistando espaço nas seleções dos principais prêmios literários franceses, incluindo o prestigioso Goncourt. Na segunda-feira, a obra recebeu o Prêmio Fnac.
Horas após a premiação, uma conta anônima no X chamada “Balance ton Claude” publicou análises feitas pelo software de detecção Pangram alegando que o romance teria sido escrito quase inteiramente por inteligência artificial. Segundo a denúncia, mais de 95% do texto foi classificado como gerado por IA.
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A acusação ganhou força após ser compartilhada por figuras ligadas à direita francesa, levantando questionamentos sobre as motivações políticas por trás da denúncia. O romance narra a trajetória de um migrante haitiano, tema que poderia desagradar setores conservadores.
Defesa do autor
Orélien reagiu afirmando que sempre gostou da criação e da escrita e que não vê razão para recorrer a uma máquina. O autor defendeu que as imagens, repetições e ritmos presentes em sua obra fazem parte de uma fala viva, enraizada nas tradições haitianas e caribenhas.
Ele também sugeriu que o software de detecção pode estar calibrado para reconhecer tradições literárias francesas e autores clássicos, não levando em conta sua formação como poeta e suas influências culturais específicas.
“Desde que cheguei recentemente à França, venho sofrendo diversos ataques racistas, que não partem dos leitores, mas de pessoas de fora que buscam prejudicar”, declarou o escritor. “Não estou triste, estou indignado. Estou reunindo um dossiê com meus editores na França e no Quebec para comprovar o que digo.”
Editoras mantêm apoio
A Grasset condenou firmemente o que chamou de declarações maliciosas que ferem profundamente um escritor de trajetória excepcional. Já a Boréal, editora de Montreal, afirmou que sua confiança no trabalho de Orélien permanece inabalada, embora reconheça que não trata as alegações com leviandade.
O software Pangram não se pronunciou sobre o caso.
Limitações dos detectores
Especialistas apontam limitações nos sistemas de detecção de inteligência artificial, especialmente quando aplicados a obras escritas em francês e com influências linguísticas diversas. Testes realizados com textos antigos de Orélien, escritos antes da popularização da IA generativa, foram classificados como integralmente humanos, enquanto trechos do romance receberam classificação de 100% IA.
O caso levanta questões mais amplas sobre autenticidade, criação artística e o futuro da literatura em tempos de inteligência artificial. Os direitos do romance já haviam sido vendidos para cerca de vinte países antes mesmo da publicação, e a crítica celebrou sua linguagem poética.
Até o momento, não há provas conclusivas sobre o uso de inteligência artificial na redação do romance. A controvérsia, porém, já se tornou tema central da temporada literária francesa e pode influenciar as discussões dos jurados dos principais prêmios do país nas próximas semanas.
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