STF
Gilmar Mendes leva ao plenário do STF ação ligada à ‘Turma do KN’
Processo envolve indenizações bilionárias a usinas e ganhou destaque após mensagens relacionarem advogada a Kassio Nunes Marques e Banco Master
O ministro Gilmar Mendes encaminhou ao plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) uma controvérsia envolvendo indenizações cobradas da União por empresas do setor sucroalcooleiro.
O processo analisado tem como partes a União e a Raízen Energia e discute os critérios necessários para comprovar prejuízos provocados pela política de controle de preços adotada pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA).
A discussão ganhou nova repercussão após a divulgação de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Parte das conversas envolve pessoas próximas ao ministro Kassio Nunes Marques e referências a processos do setor.
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Agora, caberá ao presidente do STF, Edson Fachin, definir quando a questão será incluída na pauta do plenário.
Disputa pode ter impacto superior a R$ 100 bilhões
A dimensão financeira é um dos pontos relevantes da controvérsia.
Estimativas relacionadas aos riscos fiscais da União indicam que as discussões judiciais envolvendo indenizações ao setor sucroalcooleiro podem representar impacto de aproximadamente R$ 103,4 bilhões.
Ao defender que o tema seja analisado pelo plenário, Gilmar Mendes destacou a dimensão fiscal e institucional da controvérsia.
Segundo o ministro, uma obrigação dessa magnitude pode afetar significativamente as contas públicas e reduzir recursos disponíveis para políticas definidas pelos Poderes Executivo e Legislativo.
Gilmar também argumentou que está em discussão a própria aplicação de um precedente estabelecido pelo Supremo.
STF já estabeleceu necessidade de comprovação dos prejuízos
A controvérsia está relacionada ao Tema 826 da repercussão geral.
Nesse precedente, o STF estabeleceu que empresas interessadas em receber indenizações decorrentes da política de preços do antigo IAA precisam demonstrar efetivamente os prejuízos econômicos sofridos.
Essa comprovação deve ocorrer por meio de perícia técnica em cada caso concreto.
A discussão atual envolve a aplicação dessa exigência a processos nos quais já existem decisões judiciais definitivas estabelecendo critérios para o cálculo das indenizações.
É justamente a interpretação e o alcance desse precedente que o Supremo deverá uniformizar.
Caso ganhou repercussão após mensagens de Vorcaro
Embora a disputa judicial seja anterior às investigações envolvendo o Banco Master, o assunto passou a receber maior atenção após a divulgação de mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro.
As conversas mostram a advogada Camilla Ramos acompanhando julgamentos relacionados ao tema e comemorando um voto proferido por Kassio Nunes Marques.
Camilla é casada com Newton Ramos, desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
Nas mensagens divulgadas pela imprensa, Camilla e Newton aparecem relacionados à expressão “Turma do KN”, referência associada às iniciais de Kassio Nunes Marques.
A existência dessas mensagens não comprova, por si só, que o ministro tenha atuado para favorecer o Banco Master.
Escritório negociou contrato de até R$ 427 milhões
O escritório de advocacia do qual Camilla Ramos faz parte mantinha uma relação profissional com o Banco Master envolvendo processos do setor sucroalcooleiro.
O contrato previa honorários de êxito equivalentes a 5% dos valores que fossem obtidos em 12 ações.
Documentos encontrados no material relacionado a Vorcaro estimavam os créditos envolvidos nesses processos em aproximadamente R$ 8,5 bilhões.
Caso os resultados previstos fossem alcançados e as condições contratuais cumpridas, os honorários poderiam chegar a aproximadamente R$ 427 milhões.
Esse contrato e as mensagens envolvendo seus participantes passaram a ser analisados no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master.
Nunes Marques nega favorecimento
Kassio Nunes Marques nega ter atuado para beneficiar Daniel Vorcaro ou o Banco Master.
O ministro afirma que nunca votou diretamente em favor do ex-banqueiro ou da instituição financeira.
Segundo Nunes Marques, o processo no qual apresentou seu voto tratava de uma tese jurídica ampla, com potencial aplicação a diferentes empresas do setor, e não especificamente das ações conduzidas pelo escritório ligado a Camilla Ramos.
O ministro também sustenta que suas decisões foram fundamentadas juridicamente e rejeita qualquer relação entre sua atuação no Supremo e interesses do Banco Master.
Processos diferentes tratam da mesma controvérsia
A discussão sobre as indenizações já passou anteriormente pela Segunda Turma do STF em diferentes processos.
Em um julgamento relacionado à Raízen, realizado em 2024, a Segunda Turma decidiu aplicar o entendimento estabelecido no Tema 826.
Naquela ocasião, Edson Fachin e Kassio Nunes Marques ficaram vencidos.
Em junho de 2025, outro processo envolvendo a mesma controvérsia jurídica terminou com resultado de 3 votos a 2, em composição diferente da discussão anterior.
Por isso, os dois julgamentos não devem ser tratados como se fossem o mesmo processo.
A existência de decisões diferentes sobre aspectos relacionados ao tema é justamente um dos fatores que reforçam a discussão sobre a necessidade de uniformização do entendimento pelo plenário.
Gilmar defende uniformização do entendimento
Ao encaminhar a controvérsia ao plenário, Gilmar Mendes também destacou a importância da aplicação uniforme dos precedentes do Supremo.
Segundo o ministro, interpretações divergentes sobre decisões da Corte podem gerar insegurança jurídica e enfraquecer a autoridade dos precedentes estabelecidos pelo próprio tribunal.
A análise pelo plenário permitirá que os 11 ministros discutam o alcance do Tema 826 e estabeleçam uma orientação para casos semelhantes.
Fachin decidirá quando caso será julgado

Com o encaminhamento feito por Gilmar Mendes, a definição da data de julgamento passa a depender do presidente do STF, Edson Fachin.
Ainda não há data anunciada para que a controvérsia seja analisada pelo plenário.
O julgamento deverá se concentrar nos critérios jurídicos aplicáveis às indenizações e no alcance do precedente do Tema 826.
As mensagens encontradas no celular de Vorcaro e as relações profissionais envolvendo integrantes da chamada “Turma do KN” formam um contexto paralelo que aumentou a repercussão pública do caso, mas não constituem, por si só, prova de interferência no julgamento ou de irregularidade por parte de Nunes Marques.
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