Eleições 2026
Especialistas apontam viés eleitoreiro em proibição de bets e Desenrola 3.0
Cientistas políticos e economistas criticam timing das medidas anunciadas pelo governo federal a dias do primeiro turno das eleições
A proximidade das eleições e o anúncio de medidas governamentais de forte apelo popular geraram críticas de analistas que identificam motivação eleitoral nas iniciativas. A proibição de casas de apostas esportivas e o lançamento do Desenrola 3.0, programa de renegociação de dívidas, foram divulgados a menos de uma semana do primeiro turno.
Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, afirmou que as ações possuem “caráter eleitoreiro”. Para ele, embora as medidas possam trazer benefícios, o problema está na forma apressada como foram implementadas, sem a devida preparação.
A entrada em vigor da proibição às bets está marcada para 6 de outubro, logo após o primeiro domingo de votação. O conjunto de anúncios recentes do governo, que inclui ainda o reajuste do Bolsa Família para R$ 691, foi batizado por especialistas de “pacote de bondades”.
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Impacto fiscal estimado em bilhões
Os números revelam uma injeção prevista de aproximadamente R$ 271 bilhões na economia até 2026, considerando linhas de crédito, reforços orçamentários e subsídios. Somente o aumento do Bolsa Família gera custo adicional de R$ 5,8 bilhões aos cofres públicos em 2025.
O Desenrola 3.0 pode representar despesa de até R$ 15 bilhões para a União, valor máximo estimado com base em deságio mínimo legal de 90%. A isso se soma a perda de arrecadação tributária com o fim das apostas online.
Tatiana Pinheiro, consultora econômica e pesquisadora da FGV EESP, destacou que o momento fiscal brasileiro está apertado. Segundo ela, o pacote é “bem endereçado à dor do endividamento”, mas levanta questões sobre a sustentabilidade das políticas.
Problema estrutural versus solução de curto prazo
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, observou que programas de renegociação funcionam no curto prazo, mas não alteram a situação estrutural da população. A inadimplência recorde no país, que não foi resolvida por fases anteriores do programa, tem raízes mais profundas ligadas a juros altos, renda estagnada e custo de alimentos.
Com a desaceleração econômica provocada pelas elevadas taxas de juros, a tendência é de enfraquecimento do mercado de trabalho, o que deve pressionar novamente o orçamento das famílias.
Apostas como questão de saúde pública
Apesar das críticas ao timing, os especialistas reconhecem a gravidade do problema das apostas. Estudo da Stone aponta que as bets elevam o risco de inadimplência do apostador em até 40% nas dívidas de cartão de crédito.
O Ministério da Saúde informou em maio que a procura por tratamento no SUS para dependência de jogos online cresceu quase 140% nos últimos cinco anos. Rafael Favetti, sócio da Fatto Inteligência Política, comparou a situação a uma “pandemia dos jogos”.
Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada dois dias antes do anúncio governamental mostrou que 75% dos entrevistados são favoráveis à proibição das apostas online.
Insegurança jurídica preocupa mercado
A forma como a proibição foi conduzida gerou alertas sobre insegurança jurídica. Consentino argumentou que medidas intempestivas sinalizam instabilidade institucional e desencorajam investimentos em diversos setores.
Tatiana Pinheiro apontou que o fechamento abrupto de operações anula investimentos realizados e limita o crescimento do país. A consultora questionou se investidores aceitarão aplicar capital em atividades onde as regras podem mudar repentinamente.
Os setores de mídia, clubes de futebol e influenciadores digitais serão especialmente afetados pela medida, segundo Favetti.
Sergio Vale resumiu a crítica central: o governo demorou para enfrentar questões de saúde pública e agora age de forma precipitada próximo às eleições, transmitindo a impressão de que corre contra o tempo para colher benefícios políticos.
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