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21 de setembro de 2026

Relações Internacionais

Pequim monitora Flávio Bolsonaro e teme retorno de atritos diplomáticos

Governo chinês acompanha posicionamento do candidato do PL, preocupado com possível alinhamento pró-EUA e impactos em investimentos estratégicos no Brasil

Por Redação Mancheck
Pequim monitora Flávio Bolsonaro e teme retorno de atritos diplomáticos
Pequim monitora Flávio Bolsonaro e teme retorno de atritos diplomáticos

O governo da China tem acompanhado de perto a trajetória do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), em meio a temores de que uma eventual vitória possa representar retrocesso nas relações bilaterais construídas nos últimos anos. Autoridades chinesas avaliam que o senador seria mais moderado que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas mantêm vigilância sobre suas posições em áreas consideradas estratégicas.

A preocupação em Pequim gira em torno de um possível realinhamento do Brasil em direção aos Estados Unidos, que poderia repetir os atritos diplomáticos do primeiro biênio do governo Bolsonaro. Naquele período, episódios como as declarações de Eduardo Bolsonaro culpando a China pela pandemia e a cunhagem do termo “comunavírus” pelo então chanceler Ernesto Araújo geraram tensões públicas com o embaixador Yang Wanming, ativo nas redes sociais à época.

As fricções só arrefeceram após a saída de Araújo e a nomeação de Carlos França para a pasta das Relações Exteriores. Agora, o atual embaixador chinês no Brasil, Zhu Qingqiao, adota perfil discreto e deve manter distância das campanhas presidenciais para evitar qualquer percepção de preferência por candidatos.

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Áreas sensíveis sob observação

Interlocutores do governo chinês destacam que a relação com o Brasil é considerada estratégica e de longo prazo, mas reconhecem pontos de atenção em setores como minerais críticos e inteligência artificial. A venda das minas de níquel da Anglo American em Goiás, Mato Grosso e Pará para a chinesa MMG, concretizada por US$ 500 milhões em 2025, já foi alvo de pedido de revisão pelos Estados Unidos.

Em documento de janeiro de 2026, o Escritório do Representante Comercial da Casa Branca solicitou ao Itamaraty que o Brasil reconsiderasse a operação e passasse a comunicar Washington antes de transferir controle de jazidas para economias classificadas como “non-market economies” — termo usado para referir-se à China. Não houve negociação efetiva sobre os pedidos.

No campo tecnológico, a adesão do Brasil à Waico (Organização Mundial para a Cooperação em IA), iniciativa lançada pelo presidente Xi Jinping, representa um dos avanços recentes. A organização defende modelos abertos de inteligência artificial e é vista como contraponto à Pax Silica, consórcio liderado pelos Estados Unidos.

A permanência brasileira no Brics também figura entre prioridades chinesas. Xi presidirá o bloco em 2027, após rodadas de expansão nos últimos anos. O programa de governo de Flávio Bolsonaro, porém, enfatiza a retomada do processo de adesão à OCDE sem mencionar o Brics.

Comércio versus investimentos

Apesar das incertezas políticas, Pequim não enxerga riscos significativos para o comércio bilateral. No ano passado, a China adquiriu 87 milhões de toneladas de soja brasileira, consolidando o país como maior fornecedor do grão no lugar dos Estados Unidos — movimento impulsionado pela guerra comercial entre as duas potências. Petróleo, minério de ferro e carnes também têm o mercado chinês como principal destino.

O cenário para investimentos, contudo, é menos previsível. Autoridades chinesas avaliam que avanços recentes dependem de estabilidade política e diplomática, que poderia ser abalada por rusgas entre os governos.

Entre os investimentos chineses no Brasil valorizados por Pequim estão a fábrica da BYD em Camaçari (BA), com previsão de instalação da GWM em Aracruz (ES) — o Brasil se tornou o maior comprador mundial de veículos chineses. Também figuram na lista a fábrica da CRRC em Araraquara (SP), que fornecerá equipamentos ferroviários para o Metrô de São Paulo; o megadata center da ByteDance, dona do TikTok, no complexo de Pecém (CE), que será o maior da América Latina com até 900 megawatts quando completo; e a constelação de satélites da SpaceSail, que começará a oferecer internet em 2027 como concorrente da Starlink.

As plataformas de delivery 99 e Keeta, operadas pelas chinesas DiDi e Meituan, também integram a lista de apostas chinesas no mercado brasileiro.

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