Política
Operação investiga suposta infiltração do PCC em empresas de ônibus de SP; Milton Leite é alvo
Investigação aponta possível controle da facção sobre empresas do transporte coletivo da capital e apura lavagem de dinheiro, interferência no poder público e financiamento político
Uma operação realizada nesta quinta-feira (17) pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil investiga a suposta infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte coletivo da capital paulista.
Batizada de Operação Vectura Corrupta, a ação tem entre seus principais alvos o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite, do União Brasil.
Também são alvos da investigação o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e outras pessoas apontadas pelas autoridades como possíveis intermediários dos interesses da organização criminosa.
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Segundo informações atualizadas sobre a decisão judicial, foram expedidos 13 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. As diligências ocorrem na capital e em outras cidades paulistas.
Investigação aponta possível controle de 12 empresas
Um dos pontos de maior impacto da investigação está na dimensão da suposta presença do crime organizado dentro do transporte público paulistano.
Segundo o Ministério Público, existem indícios de que pessoas ligadas ao PCC teriam assumido, direta ou indiretamente, o controle de 12 das 22 empresas que operam o sistema de transporte coletivo da cidade de São Paulo.
A suspeita é de que representantes e pessoas utilizadas como laranjas tenham sido colocados à frente das companhias enquanto outras figuras exerciam o comando real das operações.
As empresas poderiam, segundo a investigação, ser utilizadas tanto para movimentar recursos de origem criminosa quanto para legitimar negócios e interesses da organização.
A venda e negociação de ônibus também aparece nas apurações como um dos mecanismos que teriam sido utilizados para movimentar valores.
As conclusões ainda são objeto de investigação e não representam condenação dos citados.
Sete empresas aparecem nominalmente na investigação
O Ministério Público menciona sete companhias especificamente no material investigativo: A2 Transportes, Translider, Transbellaflor, Otratur, ABC Plus Transportes — antiga Translog —, Transwolff e Viação Bom Jesus.

As autoridades procuram determinar qual seria o nível de participação de pessoas relacionadas às empresas e se as companhias foram efetivamente utilizadas para beneficiar integrantes ou interesses da organização criminosa.
Documentos, movimentações financeiras e conversas obtidas em dispositivos eletrônicos apreendidos durante etapas anteriores das investigações fazem parte do material analisado.
Milton Leite é apontado como suposto “dono de fato” da Transwolff
A investigação dedica atenção especial à relação de Milton Leite com a Transwolff, empresa de ônibus que já apareceu em outras apurações relacionadas à possível lavagem de recursos para o PCC.
Segundo a decisão judicial que autorizou a operação, Leite é citado em diferentes momentos da investigação como alguém que teria influência direta sobre determinadas empresas.
Os investigadores também consideraram depoimentos prestados por policiais militares em outra apuração. Um deles afirmou ter ouvido que Milton Leite seria o verdadeiro proprietário da Transwolff e que os diretores formais atuariam como laranjas.
O próprio policial, entretanto, ressaltou no depoimento que não tinha provas dessa afirmação.
Milton Leite nega ser proprietário da Transwolff e rejeita qualquer envolvimento com atividades criminosas. Ele já declarou anteriormente que ofereceu voluntariamente seus sigilos bancário, fiscal e telefônico ao Ministério Público e sustenta que não participou de ilegalidades.
Nesta quinta-feira, Leite não foi localizado inicialmente pelos agentes para cumprimento do mandado. Segundo informação divulgada pelo UOL, ele afirmou ser inocente e disse que pretende se apresentar às autoridades.
Ex-presidente da SPTrans também está entre os investigados
Outro alvo relevante é Levi dos Santos Oliveira, que presidiu a São Paulo Transporte (SPTrans).
Segundo a investigação, Levi teria mantido um encontro com uma pessoa apontada como intermediária do PCC para discutir interesses relacionados às empresas de transporte.
O encontro teria ocorrido enquanto ele ainda ocupava a presidência do órgão municipal responsável pela gestão e fiscalização do sistema de ônibus da capital.
Os investigadores procuram esclarecer se integrantes da organização criminosa conseguiram estabelecer canais de influência não apenas dentro das empresas privadas, mas também em estruturas ligadas ao poder público.
Advogados também aparecem na investigação
A operação também alcançou advogados que, de acordo com as autoridades, teriam funcionado como intermediários dos interesses da organização criminosa.
A investigação identificou um grupo denominado “sintonia dos gravatas”, expressão usada para descrever um suposto núcleo formado por profissionais que teriam auxiliado na intermediação e legitimação de interesses ligados à facção.
Dois advogados aparecem entre os alvos desta fase.
Segundo a investigação, um escritório teria sido utilizado para reuniões envolvendo pessoas relacionadas ao PCC. Outro investigado seria responsável por aproximar empresas dos interesses da organização.
Essas acusações permanecem sob investigação.
Dinheiro também teria chegado à política
Outra frente da apuração busca esclarecer se recursos de origem ilícita teriam sido utilizados no financiamento de campanhas eleitorais.
O Ministério Público investiga possíveis movimentações destinadas a campanhas municipais e a atuação de pessoas ligadas ao esquema no ambiente político.
Entre os alvos está Danilo Marco Morgado Silva, que já disputou eleições em São Paulo. Os investigadores suspeitam que recursos ilícitos possam ter sido utilizados em uma de suas campanhas.
A investigação tenta reconstruir o caminho do dinheiro para determinar sua origem e identificar quem teria participado das operações.
Operação é resultado de investigação mais ampla
A Vectura Corrupta faz parte de uma investigação que vem avançando sobre a possível presença do PCC no setor de transporte coletivo paulista.
O material analisado pelas autoridades inclui mensagens retiradas de equipamentos eletrônicos apreendidos, documentos, informações bancárias e financeiras e depoimentos obtidos durante outras investigações.
A suspeita é de que tenha sido construída uma estrutura capaz de combinar atividades empresariais aparentemente regulares com movimentação de recursos criminosos e influência sobre agentes públicos.
A operação desta quinta-feira busca aprofundar justamente essa possível conexão entre crime organizado, empresas de transporte, agentes públicos e interesses políticos.
Os materiais apreendidos deverão agora passar por análise do Ministério Público e da Polícia Civil.
As pessoas citadas permanecem sob investigação, e as suspeitas apresentadas pelas autoridades ainda deverão ser submetidas ao devido processo judicial.
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